O Atlas da Mobilidade Social Brasil confirma que o país continua apresentando uma das mais baixas taxas de mobilidade intergeracional de renda, com a origem familiar exercendo forte influência sobre as oportunidades econômicas dos filhos.
Os resultados mostram que uma criança nascida entre os 50% mais pobres tem probabilidade reduzida de alcançar os estratos superiores de renda quando adulta, embora existam diferenças expressivas entre estados e municípios.
Os dados são derivados de aproximadamente 7 milhões de brasileiros, acompanhados da infância à vida adulta por meio de bases administrativas da Receita Federal, RAIS, Cadastro Único, Bolsa Família e pesquisas do IBGE.
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Principais indicadores nacionais
Entre os brasileiros que nasceram em famílias pertencentes à metade mais pobre da distribuição de renda:
- 66,6% permanecem na metade mais pobre quando adultos;
- apenas 33,4% conseguem alcançar a metade mais rica;
- somente 10,8% chegam ao grupo dos 25% mais ricos;
- apenas 1,8% conseguem alcançar o grupo dos 10% mais ricos da população.
O painel também mostra que 49,1% conseguem superar a posição relativa dos pais em pelo menos 10 pontos percentuais na distribuição de renda; 64,1% ficam acima do percentil ocupado pelos pais; cerca de 49,9% concluem o ensino médio; apenas 1,9% concluem o ensino superior; aproximadamente 30,1% receberam Bolsa Família entre 2015 e 2019 (considerando o recorte analisado pelo Atlas).

Norte concentra maior persistência da pobreza
A comparação entre os estados revela diferenças marcantes. Os maiores percentuais de permanência na metade mais pobre da população concentram-se principalmente na Região Norte e parte do Nordeste.
Os estados com maior probabilidade de permanecer na metade mais pobre são Acre (82,0%), Pará (81,8%), Amazonas (80,2%), Amapá (78,9%), Rio Grande do Norte (78,8%), Ceará (78,5%) e Sergipe (77,4%).
Já os menores índices são registrados principalmente nas regiões Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste: Santa Catarina (36,5%), Paraná (42,0%), Rio Grande do Sul (42,6%), Mato Grosso (46,6%), Mato Grosso do Sul (49,0%), São Paulo (50,3%) e Goiás (51,8%).
Esses resultados indicam que crianças pobres residentes nesses estados possuem, em média, maiores chances de ascensão econômica ao longo da vida.
Diferenças aparecem também entre municípios
O Atlas permite analisar resultados para todos os municípios brasileiros, além de regiões imediatas e intermediárias. A ferramenta evidencia que a mobilidade social varia significativamente dentro dos próprios estados, mostrando que o local onde a criança cresce influencia diretamente suas oportunidades futuras. O estudo não divulga apenas rankings estaduais, mas também indicadores municipais detalhados, permitindo identificar localidades com melhores ou piores perspectivas de ascensão econômica.
O Atlas da Mobilidade Social Brasil não divulgou um ranking com os municípios de maior e os de menor mobilidade social. O portal disponibiliza um mapa interativo e a base completa para download, mas as listas oficiais precisam ser extraídas dos dados.
Com base nas informações públicas já divulgadas pelo IMDS, o ranking disponível mostra os cinco municípios com maior mobilidade social (probabilidade de uma criança nascida entre os 50% mais pobres chegar aos 10% mais ricos). Na lista estão Porteirão, em Goiás (17,86%), e quatro cidades gaúchas: Nova Boa Vista (16,67%), Novo Xingu (16,00%), Vespasiano Corrêa (15,38%) e Engenho Velho (14,75%).
Adolescentes participaram de uma roda de conversa sobre gravidez na adolescência, com orientação, acolhimento e esclarecimento de dúvidas, uma iniciativa da Prefeitura de Porteirão que incentiva escolhas conscientes e reforça o compromisso com a saúde e o bem-estar dos jovens da cidade (Prefeitura de Porteirão)Como a pesquisa foi realizada
Segundo os responsáveis pelo Atlas, o estudo utiliza uma das maiores bases administrativas já reunidas sobre mobilidade social no Brasil.
Entre os principais aspectos metodológicos estão o acompanhamento de 7 milhões de brasileiros nascidos entre 1983 e 1990; utilização de dados oficiais; uso de técnicas de Machine Learning para estimar rendimentos informais, reduzindo distorções causadas pela elevada informalidade do mercado de trabalho brasileiro.
Os autores destacam que os resultados representam uma geração específica de brasileiros que cresceu entre o final dos anos 1980 e os anos 1990 e ingressou no mercado de trabalho na década de 2010. Por isso, o Atlas não mede os efeitos de políticas implementadas posteriormente, como o Bolsa Família, nem permite avaliar mudanças na mobilidade social ao longo do tempo.
A professora Maria de Lourdes Lopes em transporte escolar com alunos na comunidade do Brejão, nos Gerais de Balsas, em Balsas, no Maranhão (Fernando Frazão/ABr)Principais conclusões
O levantamento reforça que a mobilidade social brasileira permanece baixa, e a renda dos pais continua sendo um forte determinante da renda dos filhos. Retrata que apenas uma parcela muito pequena (1,8%) das crianças oriundas da metade mais pobre consegue alcançar o grupo dos 10% mais ricos da população. E mostra que o Norte e parte do Nordeste apresentam os maiores níveis de persistência da pobreza entre gerações, enquanto Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste concentram as maiores oportunidades relativas de ascensão econômica.
Na prática, o estudo conclui que o território onde a criança nasce e cresce influencia significativamente suas perspectivas futuras, indicando que desigualdades regionais continuam sendo um dos principais obstáculos à igualdade de oportunidades no Brasil.
O Atlas da Mobilidade Social Brasil é baseado no artigo científico ‘Intergenerational Mobility in the Land of Inequality’ (2024), cujos autores são Diogo Gerhard C. Britto (professor da Bocconi University e cofundador do Prospera Lab), Alexandre Fonseca (auditor-fiscal da Receita Federal e pesquisador do Prospera Lab e do IMDS), Paolo Pinotti (professor da Bocconi University), Breno Sampaio (professor da Universidade Federal de Pernambuco, diretor do Prospera Lab) e Lucas Warwar (pesquisador associado à Stanford University).
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