Um levantamento inédito do UNICEF e da Vital Strategies mostra que 333 municípios brasileiros enfrentam uma situação de vulnerabilidade socioambiental severa e multidimensional, por apresentarem alta prioridade em pelo menos 10 dos 14 indicadores analisados.
O estudo integra o Painel Crianças e Meio Ambiente, plataforma que reúne dados sobre exposição ambiental de crianças e adolescentes nos 5.569 municípios brasileiros (Boa Esperança do Norte/MT ficou fora da análise por ausência de dados).
A pesquisa evidencia que os riscos ambientais não estão distribuídos de forma homogênea pelo país. A maior concentração de vulnerabilidades ocorre na Amazônia Legal, especialmente nos estados do Pará, Amazonas, Acre, além do Maranhão e do norte de Mato Grosso, onde se acumulam problemas relacionados à qualidade do ar, saneamento, eventos climáticos extremos, infraestrutura urbana e ambiente escolar.
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Vulnerabilidades na Amazônia Legal
Segundo o estudo, entre os 30 municípios com pior desempenho, 24 estão na Região Norte, quatro no Maranhão e quatro em Mato Grosso, reforçando a concentração das vulnerabilidades na Amazônia Legal e em áreas de expansão da fronteira agrícola.
O levantamento mostra que a poluição atmosférica afeta o país de formas distintas. 94% dos municípios da Região Norte apresentam alta prioridade por poluição por queimadas (PM2,5). No Sudeste, 39% dos municípios estão nessa condição, concentrando 72% da população infantil da região, principalmente em grandes áreas metropolitanas.
A poluição causada pelo transporte apresenta os maiores percentuais de municípios em alta prioridade no Centro-Oeste (66%) e no Sul (57%).
O estudo diferencia dois perfis de poluição: queimadas predominam na Amazônia, enquanto emissões veiculares são mais relevantes no Sul e Centro-Oeste. Mas os incêndios e queimadas não são um problema exclusivo da Amazônia e também afetam o Norte (59%) e o Nordeste (41%).
Eugênio Ocampo, líder da aldeia Guyra Ambar (Morada dos Pássaros), familiares e outros membros da comunidade indígena formada por famílias do povo Mbya Guarani, localizada em Maricá/RJ (Tânia Rêgo/ABr)Déficit de saneamento e água tratada
Os indicadores de infraestrutura ambiental revelam um conjunto de vulnerabilidades que frequentemente aparecem de forma simultânea. Com relação à água tratada, o Norte acumula 60% dos municípios em alta prioridade. O Nordeste, 48%.
Já 78% dos municípios do Norte apresentam crianças sem acesso à rede de abastecimento. No Nordeste, são 46%.
O esgotamento sanitário inadequado apresenta 87% dos municípios do Norte com alta prioridade, contra 55% do Nordeste.
A coleta inadequada de lixo também se concentra principalmente no Norte (78%) e Nordeste (59%).
Os maiores percentuais de municípios em alta prioridade com relação a moradias precárias aparecem no Norte (79%), Nordeste (44%) e Centro-Oeste (40%).
Eventos climáticos extremos
A região Norte apresenta 91% dos municípios classificados com alta prioridade para chuvas intensas. No Sul, são 68%.
Os maiores percentuais de ondas de calor estão no Centro-Oeste (64%) e Norte (60%).
Ao contrário do padrão histórico brasileiro, o estudo identifica maior incidência recente de secas no Sudeste (38%) e no Centro-Oeste (28%).
Também aparecem áreas da Amazônia, como o Alto Rio Negro (Amazonas) e municípios do Acre, atingidos por secas excepcionais entre 2021 e 2025.

Ambiente escolar
O levantamento também aponta deficiências importantes nas escolas com alta prioridade em escolas sem saneamento básico no Norte (71%) e Nordeste (49%).
Os municípios classificados como alta prioridade por apresentarem escolas sem áreas verdes estão no Nordeste (52%), Sudeste (39%) e Norte (23%).
O Painel Crianças e Meio Ambiente foi desenvolvido para apoiar gestores municipais, reunindo 14 indicadores distribuídos em quatro áreas — qualidade do ar, infraestrutura ambiental e urbana, eventos climáticos extremos e ambiente escolar — e disponibilizando 50 recomendações para orientar políticas públicas voltadas à proteção de crianças e adolescentes.
Os principais resultados da nota técnica indicam que a vulnerabilidade ambiental infantil está fortemente concentrada na Amazônia Legal, especialmente nos estados do Pará, Amazonas, Acre, além do Maranhão e Mato Grosso. E que desafios variam conforme o território: queimadas predominam na Amazônia; poluição veicular no Sul e Centro-Oeste; secas recentes avançam sobre o Sudeste; ausência de áreas verdes nas escolas é mais crítica no Nordeste e Sudeste.
Os resultados observados nas regiões Sul e parte do Sudeste demonstram que investimentos contínuos em saneamento, habitação e infraestrutura ambiental podem reduzir significativamente os riscos à infância, indicando que as desigualdades identificadas são passíveis de enfrentamento por meio de políticas públicas consistentes.
@unicefbrasil @vitalstrategies
Acesse o estudo Painel Crianças e Meio Ambiente





