Até completarem os 10 anos, 6,68% das crianças brasileiras inscritas nos sistemas públicos de saúde apresentaram atraso no crescimento, 12,61% estavam com sobrepeso e 7,54% já conviviam com a obesidade.
Os dados constam na pesquisa ‘Sobrepeso, obesidade e atraso no crescimento entre crianças de baixa renda no Brasil’, publicada pela Jama Network (Vol. 9, nº 1), plataforma da American Medical Association (AMA) que reúne 12 revistas médicas internacionais.
Liderados por Gustavo Velasquez, pesquisador associado ao Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz da Bahia (Cidacs/Fiocruz Bahia), os especialistas analisaram dados de 6.494.753 crianças inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) e no Sistema de Vigilância de Alimentos e Nutrição (SISVAN).
O objetivo do estudo era descrever e comparar a adequação da estatura para a idade e do índice de massa corporal (IMC) para a idade, incluindo a prevalência de sobrepeso, obesidade e baixa estatura, entre crianças de baixa renda no Brasil por região, idade, sexo e grupo étnico-racial.
Os especialistas usaram como referência o padrão de peso e altura preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para crianças até 9 anos com desenvolvimento saudável.
Para a OMS, o peso médio para meninos aos 9 anos de idade varia entre 23,2 kg e 33,8 kg, com altura de cerca de 124 cm a 136 cm, enquanto meninas pesam em torno de 23 kg a 33 kg e medem entre 123 cm e 135 cm.

Disparidades regionais e étnico-raciais
No estudo brasileiro, entre os 6,4 milhões de crianças, 51,48% eram do sexo feminino, com idade média de 3,6 anos. Em relação à raça e etnia, 0,26% eram asiáticas; 3,84%, negras; 0,90%, indígenas; 61,71%, pardas; e 28,72%, brancas; 4,57% apresentavam dados faltantes ou inconsistentes.
A prevalência estimada de obesidade aos 5 anos de idade foi de 8,48%, aumentando para 10,09% aos 9 anos de idade. A obesidade foi mais frequente em meninos (14,12%) do que em meninas (10,09%) aos 9 anos de idade. Entre as meninas, a prevalência de obesidade foi de 11,8% entre as que se identificaram como brancas, 9,12% entre as que se identificaram como pardas e 7,46% entre as que se identificaram como indígenas.
De modo geral, os valores de altura para idade foram mais próximos da população de referência, exceto na região Norte e entre crianças indígenas, que permaneceram consistentemente abaixo do nível de referência até os 9 anos de idade.
A adequação do peso também está acima da norma, juntamente com a prevalência de sobrepeso e obesidade, sinalizando a necessidade de intervenções preventivas no pré-natal, durante os primeiros dois anos de vida, e o apoio a uma alimentação mais saudável desde o nascimento.
Obesidade é uma forma de desnutrição
Segundo os especialistas, a obesidade é uma forma de desnutrição, e seu aumento no Brasil pode ser atribuído à rápida transição nutricional.
“Além de serem doenças, o sobrepeso e a obesidade também são fatores de risco para outras doenças crônicas não transmissíveis, o que intensifica ainda mais esse cenário de rápida transição nutricional”.
O estudo cita que dados de países de baixa e média renda mostraram que falhas no crescimento e desenvolvimento que se acumulam na infância, especialmente durante os primeiros 1000 dias, têm repercussões negativas ao longo da vida, como obesidade e hipertensão, outras doenças crônicas e mortalidade.
“O monitoramento dos padrões de altura, somado às curvas de peso, pode identificar desacelerações no crescimento, que podem continuar sendo um problema substancial para a população mais pobre do Brasil. Como esses resultados variam em cada região e população, eles também podem indicar equidade social nas políticas públicas e no acesso à saúde”.
Mães solteiras e com pouca escolaridade
O estudo também investigou a condição das mães. O parto vaginal foi mais frequente (61,53%) do que a cesariana (38,29%). Aproximadamente metade das mães compareceu a 7 ou mais consultas pré-natais (50,67%) e a maioria residia em áreas urbanas (71,27%).
Em termos de características sociodemográficas maternas, 42,07% das mães tinham entre 8 e 11 anos de escolaridade e 57,27% eram solteiras.
Um total de 0,26% das mães se identificou como asiática; 3,84%, negras; 0,90%, indígenas; 61,71%, pardas; e 28,72%, brancas; 4,57% apresentaram dados ausentes ou inconsistentes.
Margem de tolerância
Gustavo Velasquez afirmou que, de acordo com o estudo, populacionalmente, as crianças brasileiras estão acompanhando ou se acham acima da referência de peso calculada pela OMS. Segundo ele, o fato de estarem um pouco acima desse parâmetro não significa que haja gravidade nisso. “Há sempre uma tolerância.”
Contudo, ele observou que, dentro do grupo analisado, há algumas crianças que já estão realmente atingindo valores anormais.
No geral, Velasquez disse que as crianças brasileiras conseguem acompanhar a altura das referências internacionais, em média, o que condiz com o desenvolvimento adequado de um crescimento linear.
“Só que nós estamos observando que esse crescimento linear está adequado, mas o peso está começando, em algumas regiões, a ser muito acima da norma que a gente espera”.
O pesquisador chamou a atenção para o fato de que a obesidade também é explicada pelas condições em que a criança nasce, o que reforça a importância do acompanhamento da criança durante a gestação e na fase pós-natal, para assegurar condições de crescimento e desenvolvimento saudáveis, ao nível de atenção primária de saúde.
Outra questão de destaque para um crescimento saudável das crianças no Brasil diz respeito à alimentação.
“Nós temos uma invasão de alimentos ultraprocessados, considerados como um dos grandes determinantes do aumento de peso, não somente nas crianças, mas em todas as populações.”
O estudo ganhou comentários de pesquisadores internacionais, no sentido de que o mundo tem que aprender as lições sobre a situação no Brasil.
Em termos de sobrepeso, os pesquisadores estrangeiros consideraram que a situação não é tão grave no Brasil, comparativamente com a da América Latina. A obesidade em crianças é muito maior no Chile, no Peru, na Argentina, por exemplo, indicou Gustavo Velasquez. Isso significa que, mundialmente, o Brasil está em um nível intermediário desse problema.
O estudo foi assinado por Gustavo Velásquez-Melendez, Carolina Santiago-Vieira, Leah Li, Rita de Cássia Ribeiro Silva, Mariana Santos Felisbino Mendes, Alexandra Dias Moreira, Elizabete de Jesus Pinto, Klara Narumi de Hamada Maia, Sofia Moreira de Aguiar, Larissa Silva Viterbo Cabral, Cristina Padez, Carlos Antônio de Souza Teles Santos, Mauricio Lima Barreto.
Com informações de Alana Gandra, Agência Brasil.
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