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Mais secos em 35 anos

36% das bacias hidrográficas do mundo tiveram vazão abaixo do normal

Relatório da Organização Meteorológica Mundial mostra queda persistente do armazenamento de água, perda de geleiras e déficits em rios e aquíferos em 2025

18/09/2026 - 10:10 Por Wilson Lopes
A publicação reúne dados de 68 países e amplia a análise para 15 variáveis hidrológicas

A Organização Meteorológica Mundial (WMO) aponta que 2025 foi um dos anos mais secos para a vazão dos rios em 35 anos, com cerca de 36% da área global das bacias apresentando volumes abaixo do normal, enquanto o armazenamento de água em terra mantém uma trajetória de queda e todas as principais regiões glaciais perderam massa pelo quarto ano consecutivo. 

O diagnóstico, divulgado em 17/09/26, mostra que o problema não se resume à escassez: o ciclo da água está mais irregular, com secas persistentes em algumas regiões e enchentes severas em outras.

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O relatório State of Global Water Resources 2025, elaborado pela WMO com dados de serviços meteorológicos e hidrológicos nacionais, modelos globais e observações por satélite, reúne informações sobre rios, reservatórios, lagos, águas subterrâneas, umidade do solo, armazenamento terrestre, neve, gelo e temperatura da água. A quinta edição também apresenta uma síntese dos cinco anos entre 2021 e 2025. 

Um dos sinais mais consistentes está no comportamento dos rios. Em 2025, aproximadamente 36% da área global de drenagem apresentou vazão anual abaixo do normal, 36% ficou dentro da faixa considerada normal e 21% acima dela. A WMO classifica o ano como um dos mais secos para a vazão dos rios desde 1991. 

A situação também não é pontual. Nos últimos sete anos, a parcela das bacias com condições normais permaneceu entre 34% e 38%, abaixo da média de 46% registrada no período de referência de 1991 a 2020. Na prática, isso significa que a maior parte das bacias analisadas esteve, ano após ano, fora da faixa histórica considerada normal.

Brasil tem contrastes entre Amazônia, São Francisco e águas subterrâneas

O mapa hídrico brasileiro apresenta diferenças importantes entre regiões. Enquanto a bacia Amazônica registrou condições de vazão normais a acima do normal em 2025, grandes áreas do sistema La Plata, incluindo a bacia do Paraná, e a bacia do São Francisco apresentaram vazões abaixo ou muito abaixo do normal. 

O quadro se torna mais complexo quando são consideradas as águas subterrâneas. O relatório identificou níveis abaixo ou muito abaixo do normal no Nordeste e Centro-Oeste do Brasil, indicando sinais de depleção acumulada e de secamento de vários anos. 

O armazenamento total de água em terra também permaneceu abaixo do normal em áreas do leste brasileiro. Esse indicador reúne a água presente no solo, rios, lagos, reservatórios, vegetação, neve, gelo e águas subterrâneas. 

O contraste mostra por que a análise exclusivamente da chuva pode ser insuficiente para medir a segurança hídrica. Uma bacia pode receber precipitação próxima da média anual e, ainda assim, apresentar déficit em rios, aquíferos ou no armazenamento acumulado.

No curto prazo, o derretimento das geleiras pode aumentar a água disponível em determinados rios (Magnific)

Geleiras perdem 1.400 gigatoneladas em três anos

Outro indicador de longo prazo é o comportamento das geleiras. Entre 2023 e 2025, elas perderam aproximadamente 1.400 gigatoneladas de água, e 2025 foi o quarto ano consecutivo em que todas as principais regiões glaciais registraram perda de massa. 

Somente no ano hidrológico de 2025, a perda foi estimada em 408 ± 132 gigatoneladas, equivalente a cerca de 1,1 ± 0,4 milímetro de elevação do nível do mar. Regiões como Ásia Central, Ásia Meridional Ocidental, Ártico russo, Islândia e oeste do Canadá e Estados Unidos tiveram um dos três anos mais negativos já registrados para o balanço de massa das geleiras. 

A redução das geleiras tem dois efeitos distintos. No curto prazo, o derretimento pode aumentar a água disponível em determinados rios. No longo prazo, porém, a diminuição da massa de gelo reduz essa reserva natural. A WMO afirma que algumas regiões dominadas por geleiras menores podem já ter ultrapassado o chamado “pico de água”, momento em que a contribuição do derretimento para os rios começa a diminuir. 

Águas subterrâneas entram no radar

As águas subterrâneas também apresentam sinais de pressão. Em 2025, 65% das estações monitoradas apresentaram níveis fora da faixa considerada normal. Em 34% delas, os níveis estavam abaixo ou muito abaixo do normal, contra 25% em 2024. 

A WMO identificou déficits persistentes entre 2022 e 2025 em áreas das Américas, Europa, Oriente Médio, Índia, África Austral e Austrália. A extração excessiva é apontada como um dos fatores importantes em determinadas regiões. 

África e Ásia concentram impactos humanos

Os eventos extremos relacionados à água tiveram forte concentração na África e na Ásia. Nos cinco anos analisados, as duas regiões responderam juntas por quase metade dos eventos registrados e por mais de 80% das mortes associadas

Em 2025, ciclones tropicais e chuvas de monções provocaram mais de 3.600 mortes em países do Sul e Sudeste Asiático, incluindo Sri Lanka, Paquistão, Vietnã, Indonésia, Tailândia, Malásia e Filipinas. O Paquistão registrou mais de mil mortes adicionais associadas a uma temporada de monções particularmente intensa. 

Na África, a Nigéria enfrentou grandes inundações pelo segundo ano seguido. Na República Democrática do Congo, grandes inundações ocorreram pelo terceiro ano consecutivo. Já a Somália entrou em estado de emergência diante do retorno da seca no Chifre da África. 

Desastres pressionam economias nacionais

Os impactos ultrapassaram as perdas humanas e atingiram diretamente as economias. Na Jamaica, o furacão Melissa e as inundações associadas provocaram perdas equivalentes a 41% do PIB nacional. No Sri Lanka, o ciclone Ditwah representou uma perda estimada em aproximadamente 4% do PIB

Nos Estados Unidos, uma inundação repentina no Texas Hill Country, em 4 de julho de 2025, provocou pelo menos 135 mortes. A maior parte das vítimas estava no condado de Kerr, após a rápida elevação do rio Guadalupe. 

O relatório ressalva, contudo, que os prejuízos econômicos globais são difíceis de dimensionar porque as perdas não são registradas de maneira sistemática, sobretudo em países com menor cobertura de seguros e menor capacidade de contabilização de danos causados por desastres. 

Figura 5. Precipitação anual total em 2025, expressa como anomalias em comparação com o período de referência de 2002–2022.
Nota: As fronteiras e os nomes apresentados, bem como as denominações utilizadas, não implicam endosso ou aceitação oficial por parte da OMM (Organização Meteorológica Mundial) ou das Nações Unidas

Mais dados, mas ainda existem grandes lacunas

A capacidade de monitoramento cresceu significativamente. O número de estações com observações de vazão de rios passou de 14 em sete países, em 2021, para 3.115 em 52 países, em 2025. O número de estações de monitoramento de águas subterrâneas chegou a 43.529 em 51 países

Apesar do avanço, África e Ásia continuam sub-representadas. Juntas, as duas regiões respondem por apenas 7% das estações de vazão utilizadas no relatório, justamente em áreas que concentram grande parte dos eventos extremos e das mortes relacionadas à água. 

Há ainda uma limitação importante: o relatório é retrospectivo e científico. Ele não apresenta estratégias detalhadas de gestão hídrica para cada país ou cidade, nem cenários futuros ou recomendações de políticas públicas. 

O conjunto dos dados aponta, portanto, para uma mudança que vai além da ocorrência de secas ou enchentes isoladas. O principal sinal identificado pela WMO é a combinação de menor disponibilidade de água em algumas regiões, perda de reservas naturais de longo prazo e maior irregularidade do ciclo hidrológico, enquanto justamente as áreas mais atingidas pelos extremos ainda apresentam lacunas relevantes de monitoramento.

O relatório ‘State of Global Water Resources’ mostra que 2025 foi um dos anos mais secos para os rios do planeta em 35 anos, ao mesmo tempo em que o armazenamento de água em terra continua em trajetória de queda e todas as principais regiões glaciais registraram perda de massa pelo quarto ano consecutivo (Magnific)

Cinformações da World Meteorological Organization.
@wmo_omm @worldbank @unitednations @nasa @cnes_france @dmcsrilanka

Acesse o relatório ‘State of Global Water Resources 2025’


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