
A cidade onde uma pessoa mora na Região Metropolitana de São Paulo pode representar uma diferença de 16 anos na idade média ao morrer, determinar se praticamente toda a população tem acesso à rede de esgoto ou se menos de 20% conta com o serviço e ainda influenciar diretamente o tempo gasto no deslocamento para o trabalho.
Os contrastes aparecem na primeira edição do Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana de São Paulo, levantamento que compara as condições de vida nos 39 municípios da maior metrópole brasileira.
O estudo, lançado pelo Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) e pela Rede Nossa São Paulo, reúne 40 indicadores sociais, econômicos e ambientais. Os dados mostram que municípios separados por poucos quilômetros e integrados à mesma dinâmica econômica e populacional apresentam realidades profundamente distintas no acesso a serviços públicos, infraestrutura e oportunidades.
São Caetano do Sul apresenta o melhor desempenho
Na classificação geral, São Caetano do Sul apresenta o melhor desempenho entre os 39 municípios analisados. No extremo oposto está Pirapora do Bom Jesus. São Paulo, maior cidade e principal centro econômico da região, aparece apenas na 16ª colocação, indicando que o tamanho da economia e a concentração de serviços não são suficientes para colocar a capital entre os municípios metropolitanos com melhores resultados gerais.
O levantamento abrange indicadores relacionados à pobreza, trabalho e renda, educação, saúde, cultura, segurança pública, meio ambiente, infraestrutura, transporte e mobilidade e habitação, além de informações populacionais usadas para contextualizar as diferenças territoriais.
Um dos contrastes mais evidentes aparece justamente em um serviço considerado básico: o esgotamento sanitário. Em Juquitiba, somente 19,5% da população é atendida por rede de esgoto. Em Poá, Santo André e Taboão da Serra, a cobertura chega a 100%.
As diferenças permanecem quando se observa o abastecimento de água. Onze municípios registram cobertura para a totalidade dos moradores, enquanto São Lourenço da Serra e Juquitiba atendem apenas 49% da população.
Na coleta seletiva, oito cidades conseguem oferecer o serviço a 100% dos habitantes. A situação é praticamente inversa em Suzano, onde somente 1,7% da população é atendida, e em São Lourenço da Serra, com cobertura de apenas 3%.
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População de baixa renda perde mais tempo nos deslocamentos
A desigualdade metropolitana também pode ser medida pelo tempo perdido diariamente nos deslocamentos. Entre a população de baixa renda de Francisco Morato, 52% das pessoas que recebem menos de meio salário mínimo levam mais de uma hora para chegar ao trabalho. Em Ferraz de Vasconcelos, são 42%. Na capital paulista, 37%.
Os indicadores de saúde revelam diferenças ainda mais profundas. Em São Caetano do Sul, a idade média ao morrer chega a 76 anos, maior resultado da região. Santo André aparece em seguida, com 71 anos. São as únicas cidades metropolitanas em que o indicador supera os 70 anos. São Paulo ocupa a terceira posição nesse quesito, com 69 anos.
No outro extremo está novamente Francisco Morato, onde a idade média ao morrer é de apenas 60 anos. A distância para São Caetano do Sul, portanto, chega a 16 anos. Além disso, outros 14 municípios apresentam idade média ao morrer inferior a 65 anos.
A cobertura vacinal também expõe diferenças importantes. Na maioria das 39 cidades, menos de 70% da população-alvo foi imunizada. Vargem Grande Paulista apresenta o melhor resultado, com cobertura de 99,8%, seguida por Pirapora do Bom Jesus, com 97%. Já Rio Grande da Serra registra apenas 29%, menor índice da região. São Lourenço da Serra, com 32%, e Jandira, com 34%, também estão entre os piores resultados.
Na educação, aproximadamente um em cada três jovens da Região Metropolitana chega aos 18 ou 19 anos sem ter concluído o ensino médio. O percentual regional de conclusão nessa faixa etária é de 66,5%.
Guararema apresenta a melhor situação, com 86% dos jovens de 18 e 19 anos tendo completado essa etapa de ensino. Juquitiba e Poá aparecem na sequência, ambas com 79%. Salesópolis ocupa o outro extremo, com apenas 52%. Na cidade de São Paulo, o percentual é de 59,8%, abaixo da média metropolitana.

Riqueza do município não significa melhores condições para seus habitantes
O Mapa também reforça que a riqueza produzida dentro do município não significa necessariamente melhores condições sociais para seus habitantes. Cajamar possui o maior Produto Interno Bruto (PIB) per capita da região, de R$ 312,7 mil. Francisco Morato aparece no extremo oposto, com apenas R$ 13,5 mil. A diferença é de aproximadamente 23 vezes. São Paulo registra PIB per capita de R$ 93,2 mil.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que o indicador mede o valor da produção econômica dividido pela população e não corresponde à renda efetivamente recebida pelos moradores. Cidades que concentram grandes indústrias, centros de distribuição, empresas e atividades logísticas podem apresentar PIB elevado sem que essa riqueza resulte proporcionalmente em melhor qualidade de vida.
Outro retrato da desigualdade aparece na habitação. Mauá tem a maior proporção de moradores vivendo em favelas e comunidades urbanas: 27,5% da população, ou mais de um em cada quatro habitantes. Itaquaquecetuba aparece em seguida, com 24,7%, e Diadema, com 22,3%.
Na capital paulista, 15% dos moradores vivem em favelas e comunidades urbanas. Em contrapartida, sete municípios apresentam percentual zero no indicador: Guararema, Juquitiba, Salesópolis, Santa Isabel, São Caetano do Sul, São Lourenço da Serra e Vargem Grande Paulista.
A segurança pública também varia significativamente conforme o território. Biritiba Mirim e São Lourenço da Serra registraram taxa de homicídios igual a zero no indicador utilizado pelo estudo, enquanto Pirapora do Bom Jesus chegou a 16,3 homicídios por 100 mil habitantes. A pesquisa avalia ainda feminicídios, violência contra a população LGBTQIA+ e diferenças entre as taxas de homicídios da população preta e parda e da população branca e amarela.
Ao todo, a saúde é a área com maior quantidade de variáveis analisadas, com 14 indicadores, incluindo obesidade e desnutrição infantil, vacinação, mortalidade infantil e materna, mortalidade por Aids, tuberculose, hepatite, gravidez na adolescência e idade média ao morrer.
Problema metropolitano dentro da desigualdade brasileira
O Mapa utiliza dados provenientes de fontes públicas e oficiais, entre elas IBGE, DataSUS, Inep, INPE, Ministério da Saúde, Ministério da Educação, Ministério do Trabalho e Emprego, sistemas nacionais de saneamento e outras bases governamentais.
Para chegar à classificação geral, cada município recebe pontos conforme sua posição relativa nos indicadores disponíveis. A cidade com o melhor resultado em determinado indicador recebe 39 pontos, a segunda colocada recebe 38 e assim sucessivamente, até um ponto para o pior resultado. A pontuação final corresponde à soma dos resultados dividida pelo número de indicadores com informações disponíveis para aquele município. Todos os indicadores considerados no ranking têm o mesmo peso.
O levantamento também contextualiza o problema metropolitano dentro da desigualdade brasileira. Segundo dados citados pelo estudo, o Brasil figura como o 14º país mais desigual do mundo e o 1% mais rico recebe 30,8 vezes mais do que os 50% mais pobres.
Casas marcadas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) para serem demolidas na Favela do Moinho no centro da capital paulista (Rovena Rosa/ABr)Municípios vizinhos e desempenhos completamente diferentes
A principal conclusão do Mapa é que não existe uma única divisão territorial capaz de explicar a desigualdade da Grande São Paulo. Municípios vizinhos e conectados pelos mesmos fluxos de emprego, transporte e serviços podem apresentar desempenhos completamente diferentes conforme o indicador analisado.
Os resultados também mostram que riqueza econômica, isoladamente, não garante melhores condições de vida. Municípios podem combinar PIB elevado com problemas sociais, enquanto cidades menores podem obter desempenho positivo em determinados serviços públicos. As desigualdades se sobrepõem de maneiras distintas em saúde, educação, habitação, mobilidade, saneamento, renda e segurança.
O diagnóstico reforça ainda a necessidade de políticas públicas metropolitanas articuladas. Problemas como longos deslocamentos entre residência e emprego, saneamento, habitação e acesso a serviços ultrapassam as fronteiras administrativas de cada prefeitura. Para o Instituto Cidades Sustentáveis, identificar territorialmente onde estão as maiores vulnerabilidades permite direcionar investimentos, estabelecer prioridades e ampliar a cooperação entre os municípios.
A primeira edição do Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana de São Paulo foi produzida sob a coordenação do Instituto Cidades Sustentáveis. A plataforma permite consultar os indicadores individualmente e comparar o desempenho dos 39 municípios, oferecendo um diagnóstico detalhado de como as oportunidades e o acesso a direitos continuam distribuídos de maneira desigual dentro de uma das regiões economicamente mais importantes do país.
Com informações do Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) e Rede Nossa São Paulo.
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