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Assembleia Geral

Por que o Brasil é o primeiro a discursar na ONU?

Tradição iniciada em 1955 transforma abertura do debate em uma das principais vitrines diplomáticas do país

22/09/2026 - 09:52 Por Wilson Lopes

O Brasil abre, nesta terça-feira (22/09), em Nova York, o Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, mantendo uma tradição diplomática que se consolidou desde 1955. A posição faz com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja o primeiro chefe de Estado a apresentar oficialmente as prioridades de seu país diante dos representantes dos 193 Estados-membros da ONU, em uma semana que reúne líderes mundiais para discutir conflitos, desenvolvimento, clima, direitos humanos e outros desafios internacionais.

A escolha do Brasil para iniciar os discursos não decorre de uma regra que determine que o país deva ocupar permanentemente o primeiro lugar. Trata-se de uma tradição protocolar. Segundo as Nações Unidas no Brasil, ela remonta à 10ª sessão da Assembleia Geral, em 1955, e está relacionada à atuação do diplomata brasileiro Oswaldo Aranha nos primeiros anos da Organização.

Aranha presidiu a segunda sessão da Assembleia Geral, em 1947, e também teve papel de destaque nos trabalhos da Organização naquele período. A participação brasileira ajudou a consolidar a relação protocolar que, anos depois, levou o país a ocupar a abertura do Debate Geral. A própria ONU classifica a prática como uma honraria concedida ao Brasil, mas ressalta que ela não foi institucionalizada como uma regra permanente.

A tradição atravessou diferentes governos brasileiros e permanece em vigor em 2026. Depois do Brasil, a palavra passa aos Estados Unidos, país que abriga a sede das Nações Unidas, em Nova York. A sequência é, portanto, resultado de uma combinação de tradição diplomática e protocolo, e não de uma hierarquia formal entre os países.

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O que acontece na Assembleia Geral?

A Assembleia Geral é um dos seis principais órgãos da ONU e o único deles com representação universal de todos os 193 Estados-membros. Os outros cinco são o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social, o Tribunal Internacional de Justiça, o Conselho de Tutela e o Secretariado.

Sua função mais conhecida é servir como grande fórum de negociação internacional. Uma vez por ano, em setembro, chefes de Estado e de governo se reúnem em Nova York para a chamada Semana de Alto Nível. Em 2026, o Debate Geral ocorre de 22 a 28 de setembro, dentro da 81ª sessão da Assembleia Geral.

Durante o Debate Geral, os líderes apresentam as prioridades de seus países, expõem posições sobre problemas internacionais e defendem propostas de cooperação. Não se trata, porém, de uma série de votações entre presidentes. Os discursos são manifestações políticas e diplomáticas que antecedem ou acompanham negociações realizadas nos diferentes órgãos e comitês da Organização.

O tema escolhido para a 81ª sessão é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”. A programação de 2026 inclui discussões sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ação climática e transição justa, elevação do nível do mar, preparação para pandemias, direito ao desenvolvimento e eliminação das armas nucleares.

Por que cada país tem o mesmo voto?

Um dos aspectos mais importantes da Assembleia Geral é a igualdade formal entre os Estados. Brasil, Estados Unidos, China, Índia, Japão ou um pequeno Estado insular possuem, na Assembleia, um voto cada.

Essa igualdade não significa que todos tenham o mesmo peso político ou econômico fora da votação. Países possuem populações, territórios, economias e capacidades militares muito diferentes. Além disso, o Conselho de Segurança possui uma estrutura própria, com cinco membros permanentes — China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia — que têm direito de veto em determinadas decisões.

Na Assembleia Geral, entretanto, o princípio é de igualdade entre os Estados-membros. Questões consideradas importantes, como determinadas recomendações relacionadas à paz e segurança, eleições para órgãos da ONU e questões orçamentárias, exigem maioria de dois terços. Outras decisões podem ser tomadas por maioria simples.

O que a Assembleia Geral pode decidir?

A Assembleia Geral participa de decisões fundamentais para o funcionamento da ONU. Entre suas competências estão a aprovação do orçamento da Organização, a eleição dos membros não permanentes do Conselho de Segurança e de integrantes de outros órgãos e, a partir de recomendação do Conselho de Segurança, a nomeação do secretário-geral.

Também pode formular recomendações sobre princípios de cooperação internacional, paz e segurança, desarmamento, direitos humanos, desenvolvimento econômico e social, educação, saúde, cultura e ajuda humanitária.

Uma diferença importante em relação ao Conselho de Segurança é o caráter jurídico de suas decisões. Em suas reuniões regulares, grande parte das resoluções da Assembleia Geral não é juridicamente vinculante para os Estados. Elas possuem peso político e diplomático, podendo expressar a posição da maioria dos países e influenciar negociações e normas internacionais.

Por que a abertura brasileira importa?

O primeiro discurso dá ao Brasil uma posição privilegiada no protocolo da cerimônia. O presidente brasileiro fala antes dos demais chefes de Estado e governo, quando a atenção internacional está concentrada na abertura do Debate Geral.

Isso não significa que o Brasil tenha poder institucional superior aos demais países. Na própria Assembleia Geral, o país continua tendo um único voto, assim como cada um dos outros 192 Estados-membros.

A importância está principalmente no espaço diplomático. O discurso de abertura permite ao governo brasileiro apresentar sua leitura sobre temas internacionais e colocar assuntos de interesse nacional na agenda de uma audiência que reúne praticamente toda a comunidade internacional.

Em 2026, essa exposição ocorre em uma Assembleia Geral que reúne representantes de 193 países e cuja programação inclui temas que atravessam diretamente as políticas nacionais: mudanças climáticas, desenvolvimento sustentável, conflitos, saúde, segurança, direitos humanos e governança internacional.

Uma vez por ano, em setembro, chefes de Estado e de governo se reúnem em Nova York para a chamada Semana de Alto Nível (ONU/Manuel Elias)

A ONU é um governo mundial?

Não. A ONU é uma organização internacional formada por Estados soberanos. Ela cria mecanismos de negociação, cooperação, coordenação e, em determinados casos, tomada de decisões coletivas, mas não substitui os governos nacionais.

Essa distinção é importante para compreender a Assembleia Geral. O presidente brasileiro não vai a Nova York para “representar a ONU” nem para participar de um parlamento mundial nos moldes de um Congresso nacional. Ele representa o Estado brasileiro em um fórum internacional.

A ONU funciona, portanto, como uma estrutura permanente para que os países negociem interesses comuns, estabeleçam compromissos, aprovem normas e coordenem ações. Seu poder resulta tanto de suas competências previstas na Carta das Nações Unidas quanto da capacidade dos Estados de implementar os acordos e compromissos assumidos.

O que está em jogo em 2026?

A 81ª sessão ocorre em um cenário de múltiplas crises internacionais e tem como eixo declarado a recuperação da confiança na cooperação multilateral. A própria ONU definiu como tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação”.

A agenda da Semana de Alto Nível mostra a amplitude do debate: além dos conflitos e da segurança internacional, estão em pauta clima, transição energética, desenvolvimento, saúde, desigualdade, oceanos, pandemias e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

É nesse ambiente que o Brasil mantém, mais de sete décadas depois do início da tradição, o primeiro lugar na fila dos discursos.

A posição é simbólica, diplomática e protocolar. Mas há uma distinção fundamental: ser o primeiro a falar não significa ser o país mais poderoso da Assembleia Geral, ter mais votos ou possuir autoridade especial sobre os demais Estados.

O Brasil abre o debate porque uma tradição iniciada na década de 1950 foi preservada ao longo das sucessivas sessões da ONU. Depois dele, fala o país anfitrião, os Estados Unidos, e a sequência prossegue entre os demais integrantes da Organização. 

Com informações da United Nations.

@onubrasil @unitednations @lulaoficial @realdonaldtrump @itamaratygovbr @antonioguterres @govbr 

Acesse a página oficial da 81ª Assembleia Geral da ONU

Assista ao vídeo da 81ª Assembleia Geral da ONU:
 


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