A taxa de desemprego no Brasil caiu de 6,4% para 5,6% entre 2024 e 2025, mas a recuperação do mercado de trabalho não ocorreu de forma igual para todos. Jovens mulheres negras seguem concentrando os piores indicadores de inserção laboral, com maiores taxas de desocupação, informalidade, desalento e os menores rendimentos do país.
Os dados são da quarta edição do relatório ‘Jovens negras seguem nos piores indicadores de trabalho no Brasil’, da Rede Multiatores MUDE com Elas, elaborado pelo Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades, com base na PNAD Contínua do terceiro trimestre de 2025, já recalibrada a partir do Censo Demográfico de 2022.
O estudo analisa a população de 14 a 29 anos sob recortes de sexo, raça e idade, evidenciando a persistência de desigualdades estruturais no mercado de trabalho brasileiro.
Segundo Shirley Santos, coordenadora da rede multiatores pelo CEERT, a análise da PNAD Contínua evidencia que as desigualdades de raça e gênero não são pontuais, mas estruturais.
“Elas atravessam o acesso ao trabalho, a qualidade das ocupações e a renda, impactando de forma mais intensa a juventude negra.”
>>Siga a Agência Cidades no Instagram
>>Siga a Agência Cidades no Facebook
Desigualdade começa cedo
A exclusão das jovens negras do mercado de trabalho começa ainda na adolescência. Entre 14 e 17 anos, a taxa de desocupação chega a 24,7%, nível 1,4 vez superior ao dos homens brancos da mesma faixa etária.
Na faixa de 18 a 24 anos, momento-chave de transição entre escola e trabalho, a desigualdade se intensifica: a taxa de desocupação entre jovens negras é de 16,5%, equivalente a 1,6 vez a dos homens brancos.
Mesmo entre 25 e 29 anos, período em que se espera maior estabilidade, o cenário permanece desigual. A taxa de desocupação das mulheres negras é de 10,3%, quase o dobro da observada entre mulheres brancas e 2,8 vezes a dos homens brancos, indicando que o avanço da idade não elimina as barreiras estruturais.
Menor renda e informalidade
Além de enfrentarem mais dificuldades para acessar o mercado, jovens negras recebem significativamente menos. Em 2025, o rendimento médio das mulheres negras correspondeu a apenas 46,5% do rendimento dos homens brancos, uma diferença de 53,5% que permanece praticamente inalterada nos últimos anos.
Na Região Metropolitana de São Paulo, a desigualdade se repete: jovens mulheres negras recebem, em média, R$ 2.236, enquanto homens brancos chegam a R$ 3.926. Entre 25 e 29 anos, a distância aumenta ainda mais, com rendimentos de R$ 2.569 para mulheres negras e R$ 5.323 para homens brancos.
A precarização também é mais intensa. A taxa de informalidade entre jovens negras é de 39,1%, quase 10 pontos percentuais acima da registrada entre jovens brancas. Entre jovens homens negros, esse índice chega a 44,2%, evidenciando maior exposição a vínculos frágeis e sem proteção social.
Desalento e barreiras educacionais
O estudo aponta ainda que jovens negras estão entre as mais afetadas pelo desalento, condição de quem desiste de procurar trabalho. Elas representam 38,7% dos jovens desalentados no país, enquanto jovens negros somam 36,1%, totalizando 74,8% desse contingente.
Na faixa de 25 a 29 anos, a participação das mulheres negras no desalento chega a 44,2%, evidenciando o efeito cumulativo das desigualdades ao longo da trajetória laboral.
As dificuldades de inserção no mercado também dialogam com desigualdades educacionais. Entre jovens de 18 a 24 anos, 46,8% das mulheres brancas frequentam ou concluíram o ensino superior, enquanto entre as mulheres negras essa proporção é significativamente menor, indicando obstáculos adicionais na conversão da escolaridade em oportunidades de trabalho.
Os dados mostram que, embora haja melhora geral nos indicadores do mercado de trabalho, as desigualdades de raça, gênero e idade seguem estruturando as trajetórias profissionais no país. Jovens negras permanecem mais expostas à desocupação, à informalidade, à rotatividade e aos baixos salários, com efeitos que se acumulam ao longo da vida.

MUDE com Elas
A Rede Multiatores MUDE com Elas é uma iniciativa da Ação Educativa, do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e da Terre des Hommes Alemanha, com apoio do BMZ - Ministério para Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha. Reúne organizações da sociedade civil, pesquisadores, educadores, comunicadores e jovens ativistas em um espaço de diálogo democrático para enfrentar as múltiplas camadas de desigualdade que atingem jovens mulheres negras no mercado de trabalho.
Com informações de MUDE com Elas.
@mudecomelas @ceert @acaoeducativa
>>Acesse 7 dados sobre jovens mulheres negras no mercado de trabalho





