A Bacia Amazônica concentra a maior diversidade de peixes de água doce conhecida no planeta, com mais de 2.700 espécies quando considerado também o sistema Tocantins-Araguaia, segundo o relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, publicado em 2026 pela The Nature Conservancy (TNC). Isso corresponde a aproximadamente 15% de todas as espécies de peixes conhecidas no mundo, segundo o estudo.
Cerca de 65% dessas espécies, aproximadamente 1.700, são endêmicas, ou seja, não são encontradas naturalmente em nenhuma outra parte do mundo. O estudo mostra que essa biodiversidade sustenta ecossistemas, alimentação, atividades econômicas e culturas de milhões de pessoas, mas está submetida a pressões simultâneas provocadas por barragens, desmatamento, poluição, sobrepesca, espécies invasoras e mudanças climáticas.
O levantamento reúne contribuições de mais de 50 especialistas de mais de 30 organizações e procura colocar os ecossistemas de água doce no centro das políticas de conservação da Amazônia. O relatório destaca que rios, lagos, várzeas, áreas úmidas e florestas inundadas formam um sistema interconectado, no qual os peixes exercem funções que ultrapassam a cadeia alimentar. Eles participam da reciclagem de nutrientes, dispersam sementes, conectam rios e florestas durante os ciclos de inundação e servem de alimento para outros animais.
A dimensão dessa diversidade ainda não é totalmente conhecida. No século XIX, eram registradas aproximadamente 500 espécies de peixes amazônicos. O número chegou a cerca de 1.500 em 1980 e ultrapassou 2.500 na década de 2020. Dezenas de novas espécies continuam sendo descritas todos os anos. Em 2017, por exemplo, foi identificada uma família de peixes inteiramente nova, a Tarumaniidae.
O endemismo é particularmente elevado. Cerca de 1.700 espécies não ocorrem fora da Amazônia e algumas apresentam distribuição extremamente restrita. O relatório registra, por exemplo, mais de 830 espécies em uma única sub-bacia. Essa concentração aumenta a vulnerabilidade porque alterações em um determinado rio ou afluente podem atingir espécies que não possuem populações naturais em outros locais.
Biodiversidade ligada à alimentação e à renda
A importância dos peixes também é econômica e social. Milhões de pessoas na Amazônia dependem do pescado para alimentação e subsistência. Em algumas comunidades ribeirinhas remotas, o consumo ultrapassa 600 gramas por pessoa por dia. Para famílias de baixa renda, o pescado está entre os alimentos de origem animal mais acessíveis e nutritivos.
A atividade pesqueira, entretanto, aparece subestimada nas estatísticas. Segundo o relatório, grande parte da pesca amazônica é realizada por pescadores artesanais, de pequena escala ou de subsistência, cujas capturas frequentemente não são registradas. Mesmo com essa limitação, as estimativas disponíveis indicam que pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente.
Espécies são capturadas vivas para abastecer aquários
A pesca ornamental acrescenta outra dimensão econômica. Centenas de espécies são capturadas vivas para abastecer aquários em diferentes países. Brasil, Colômbia e Peru aparecem como os principais exportadores da região. No Brasil, cerca de 400 espécies são coletadas para exportação, embora apenas dez respondam por 90% das exportações. Em 2024, o país exportou 2 milhões de peixes na categoria comercial, que reúne peixes ornamentais de água doce e arapaima, com valor registrado de aproximadamente US$ 3,7 milhões.
A atividade possui forte concentração territorial. Entre os principais locais brasileiros relacionados à pesca ornamental estão o rio Negro, especialmente a região de Barcelos, no Amazonas, além dos rios Madeira, Japurá, Xingu e Tocantins.
No Peru, a Amazônia abriga aproximadamente 500 espécies ornamentais nativas, com Loreto como principal polo de extração e exportação. Em 2024, o país exportou 4,5 milhões de peixes ornamentais vivos para 25 países; os Estados Unidos responderam por 23% desse volume.
Na Colômbia, é autorizada a coleta de 313 espécies amazônicas para fins ornamentais. Em 2023, foram registrados 4,8 milhões de exemplares de 77 espécies capturados para esse mercado.
Pescadores fazem reparos em barco, em Soure, Ilha de Marajó, no Pará: grande parte da pesca amazônica é realizada por pescadores artesanais, de pequena escala ou de subsistência (Marcelo Camargo/ABr)Peixes também ajudam a manter a floresta
O relatório mostra que a relação entre floresta e peixe funciona nos dois sentidos. Espécies como o tambaqui entram nas florestas alagadas durante a cheia para consumir frutos e sementes. Ao se deslocarem, esses peixes transportam sementes por grandes distâncias e contribuem para a regeneração da vegetação.
Isso significa que a degradação da floresta também afeta os peixes. O desmatamento das margens reduz a oferta de frutos, folhas, insetos e outros recursos utilizados por espécies aquáticas. A perda da vegetação também aumenta a erosão e o transporte de sedimentos para os rios.
O sistema amazônico é particularmente dependente do ciclo natural de cheias e secas. A inundação sazonal conecta rios, lagos e florestas, favorece a reprodução dos peixes e distribui nutrientes. Esse ciclo também influencia a pesca, a agricultura e o transporte das comunidades locais.
144 espécies aparecem na Lista Vermelha da UICN
A dimensão do risco é parcialmente conhecida. Das aproximadamente 2.700 espécies consideradas pelo relatório, 144 aparecem na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (International Union for Conservation of Nature – IUCN). Avaliações nacionais realizadas no Brasil, Colômbia, Bolívia e Equador identificaram 82 espécies nas categorias Criticamente em Perigo, Em Perigo ou Vulnerável.
O número, entretanto, não representa necessariamente a dimensão real da ameaça. Outras 334 espécies estão classificadas como “Dados Insuficientes” pela UICN, o que significa que não existem informações suficientes para determinar seu risco de extinção. O relatório observa que mais de 12% dos peixes de água doce da região estão nessa situação.
O problema é particularmente evidente no Peru, que, embora seja apontado como um dos países mais biodiversos da Bacia Amazônica, não possui uma Lista Vermelha nacional oficial para peixes de água doce. Na Colômbia, o relatório aponta limitações de capacidade institucional e recursos financeiros para avaliar todas as espécies.
Essa lacuna produz um dos principais paradoxos do levantamento: quanto maior a diversidade, maior também a quantidade de espécies para as quais ainda faltam informações básicas de conservação.
A dourada realiza a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada, percorrendo mais de 11 mil quilômetros entre áreas de reprodução nos Andes e o estuário amazônicoBarragens interrompem rotas migratórias
Entre os casos mais emblemáticos está o dos grandes bagres migratórios. Mais de 100 espécies realizam migrações nos ecossistemas de água doce amazônicos. Entre elas estão a dourada, a piramutaba e a piraíba.
A dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) realiza a mais longa migração exclusivamente em água doce já registrada. Um indivíduo pode percorrer mais de 11 mil quilômetros entre áreas de reprodução nos Andes e o estuário amazônico. Seu ciclo envolve águas de países como Colômbia, Equador, Peru e Bolívia, antes de alcançar o sistema amazônico e iniciar posteriormente a migração de retorno.
A construção de barragens pode interromper essas rotas. No rio Madeira, nas proximidades de Porto Velho (RO), barragens já provocaram declínios em até 70 espécies de peixes migratórios, segundo o relatório.
Outro exemplo está no rio Xingu. O acari-zebra (Hypancistrus zebra), espécie endêmica do rio, é classificado como criticamente ameaçado e sofre com a perda de habitat associada à implantação de hidrelétricas, especialmente Belo Monte.
No Tocantins, espécies endêmicas também estão confinadas, em grande medida, a remanescentes de habitat localizados acima das barragens. Entre elas estão espécies de arraias de água doce, cascudos e bagres.
Áreas úmidas perderam milhões de hectares
O problema não se restringe às barragens. Mapeamentos citados no relatório indicam que aproximadamente 7,4 milhões de hectares de áreas úmidas amazônicas haviam sido convertidos até 2020. Entre 2021 e 2024, houve perda adicional de aproximadamente 800 mil hectares, associada principalmente à expansão agrícola, crescimento urbano e mineração de ouro.
A alteração dessas áreas afeta diretamente a alimentação, reprodução e sobrevivência dos peixes. A perda de vegetação nas margens também compromete a relação entre peixes frugívoros e floresta, reduzindo a disponibilidade de alimento e, simultaneamente, a dispersão de sementes.
Mercúrio cria risco ambiental e de saúde
A mineração de ouro representa outra pressão. O relatório aponta que a mineração não industrial de ouro responde por 83% das emissões antrópicas de mercúrio na América do Sul. O metal pode chegar aos ecossistemas aquáticos e se acumular nos organismos. Nos peixes, está associado a danos nos tecidos, alterações reprodutivas e redução do sucesso reprodutivo.
O problema alcança a saúde humana porque o pescado é uma das principais vias de exposição ao mercúrio na Amazônia. O relatório classifica o mercúrio como uma potente neurotoxina e destaca seus riscos para crianças.
Barcos encalhados na Ponta da Piraiba, em Manaus, no Amazonas, que sofreu em 2023 com a maior seca em 121 anos (Rafa Neddermeyer/ABr)Mudanças climáticas podem reduzir a vazão dos rios
As mudanças climáticas ampliam os efeitos das demais pressões. O relatório projeta aumento das temperaturas e alterações importantes nos regimes de vazão dos rios até meados do século. Em regiões-chave, como as cabeceiras do rio Madeira, a redução da descarga anual pode superar 40%.
A consequência não é apenas ter menos água. A alteração do regime hidrológico reduz a extensão e a conectividade dos habitats, interfere na temperatura e no oxigênio da água e pode atingir especialmente espécies adaptadas a ambientes específicos. Nos riachos andinos, o aquecimento da água pode levar à extinção local de espécies endêmicas.
Manejo comunitário aparece como alternativa
Apesar do quadro de pressão, o relatório apresenta experiências de manejo comunitário como uma das principais oportunidades de conservação. Foram identificadas 155 iniciativas no Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia, abrangendo quase 13 milhões de hectares, mais de 1.200 comunidades e mais de 21 mil pescadores.
Cerca de 34% das áreas de manejo interagem com áreas protegidas e 26% com territórios indígenas. O estudo relaciona o manejo comunitário à maior abundância de peixes, maior riqueza de espécies e benefícios econômicos e sociais.
Um exemplo está no Amazonas, onde experiências de manejo do pirarucu demonstram que a participação dos próprios pescadores pode transformar a conservação em instrumento de proteção dos estoques e de geração de renda.
No Equador, a comunidade Kichwa Zancudo Cocha, localizada na Reserva de Produção de Fauna Cuyabeno, mantém desde 2012 um programa de pesca esportiva de captura e soltura. O projeto envolve 15 famílias e combina turismo, conservação e gestão territorial indígena.
João Bosco Saraiva de Souza, pescador da região do Porto de Manaus, no Amazonas: maior diversidade de peixes de água doce conhecida no planeta (Rafa Neddermeyer/ABr)Relatório defende gestão de toda a bacia
A principal conclusão do estudo é que a Amazônia não pode ser administrada apenas por fronteiras nacionais. Água, sedimentos, nutrientes e peixes atravessam os limites políticos, e espécies migratórias podem depender de rios que percorrem vários países. Por isso, o relatório defende políticas coordenadas entre os países amazônicos, além da participação de povos indígenas, comunidades locais, universidades, setor privado e sociedade civil.
Entre as prioridades estão proteger rios de fluxo livre, manter ou restaurar a conectividade dos cursos d'água, proteger habitats críticos, combater espécies invasoras, melhorar a qualidade da água e fortalecer o monitoramento científico e comunitário.
O relatório também aponta uma conquista recente: em 2024, a proposta brasileira de incluir a dourada e a piramutaba no Apêndice II da Convenção sobre Espécies Migratórias foi aprovada por unanimidade. Em 2026, o Plano de Ação Regional para as duas espécies foi formalmente aprovado, ampliando a cooperação entre os países amazônicos.
A mensagem central do estudo é que conservar os peixes significa conservar o sistema de rios e florestas do qual eles fazem parte. Para uma bacia hidrográfica em que uma única espécie pode depender de milhares de quilômetros de rios e em que centenas de espécies ainda não foram adequadamente avaliadas, o relatório aponta que a conservação precisa ocorrer na mesma escala do fenômeno natural: toda a Bacia Amazônica.
A Bacia Amazônica concentra aproximadamente 20% da água doce superficial do planeta (Magnific)A maior bacia hidrográfica do mundo
A Bacia Amazônica é a maior bacia hidrográfica do mundo, com cerca de 7 milhões de km², abrangendo territórios de sete países sul-americanos, além da Guiana Francesa, território ultramarino da França.
Uma referência da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) apresenta a seguinte distribuição da área da Bacia Amazônica entre os países:
- Brasil: 63,4%
- Bolívia: 10,5%
- Peru: 8,3%
- Venezuela: 5,3%
- Colômbia: 5,1%
- Guiana: 2,7%
- Suriname: 1,8%
- Equador: 1,6%
A região concentra aproximadamente 20% da água doce superficial do planeta. Seu eixo principal é o rio Amazonas, que percorre cerca de 6.900 km e despeja, em média, 210 mil m³ de água por segundo no Oceano Atlântico, além de transportar enormes volumes de sedimentos.
A rede hidrográfica reúne mais de 1.000 afluentes, entre eles os rios Madeira, Negro, Solimões, Xingu, Tapajós, Purus, Juruá, Japurá, Içá e Javari, formando um sistema de rios, várzeas, lagos, áreas alagadas e águas subterrâneas que conecta a Cordilheira dos Andes às planícies amazônicas e ao Atlântico.
Além da importância ecológica, os rios amazônicos são fundamentais para alimentação, transporte, economia, culturas tradicionais e regulação climática, o que faz da conservação de sua conectividade e da qualidade de suas águas uma questão de importância regional e global.
Com informações do The Nature Conservancy
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Acesse o relatório ‘Peixes Esquecidos da Amazônia - Como a notável diversidade dos peixes de água doce é essencial para as pessoas, os rios e a floresta’
Acesse o relatório ‘Mudanças hidroclimáticas e os riscos decorrentes para comunidades humanas e ecossistemas vulneráveis’
Acesse o The Nature Conservancy
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